paris, je t’aime

Abril 22, 2008

Gus Van Sant constrói em Le Marais um belo pequeno conto de amor, ou da possibilidade deste. Gaspard (Gaspard Ulliel) adentra a pequena gráfica em que Eli trabalha, acompanhando uma senhora inglesa (Marianne Faithfull), que necessita realizar alguns serviços.

Após transitar com segurança entre o francês e o inglês, mediando a comunicação entre a senhora e o dono da gráfica, Gaspard percebe Eli ao fundo do estabelecimento e se dirige ate ele para conversar. Enquanto Eli, discreto, permanece passivo diante da situação, escutando o francês falar em sua língua natal, Gaspard, como que tomado por um brainstorming afetivo, faz conjeturas sobre a magia do encontro e almas gêmeas, num claro encanto com o encontro fortuito que acabara de ter com o americano. Gaspard deixa então seu telefone com Eli e parte.

Eli revela finalmente a seu chefe não ter entendido quase nada do que o outro dizia. E a resposta é direta: “liga pra ele!”.

De um só golpe, a reação “apática” de Eli e o distanciamento que pautou o encontro que havíamos acabado de presenciar são reconfigurados. A atenção quase exclusiva da câmera a Gaspard, que não o conectava a Eli, não era partidária da suposta não-comunhão entre ambos, mas da sensibilidade meio perplexa de Eli, que apenas observava. Subitamente, o silêncio do rapaz e seu aparente desinteresse com a fala tão eloqüente e impulsiva do francês cedem lugar ao empenho em não deixar que aquele contato, de tão breve, se esvaeça. Eli sai correndo pelas ruas, na tentativa de ainda encontrar Gaspard nas proximidades. Atravessando um universo repleto de passantes, Eli busca restabelecer a fugidia conexão travada momentaneamente no ambiente da loja.

Eli corre em disparada ao perceber a fugacidade daquele momento, para não deixar escapar uma possibilidade anunciada. Não a de uma relação arrebatadora (um romance?) entre almas gêmeas, como sugere a fala de Gaspard (que ele não entende), mas a de algum relacionamento, que ainda está por nascer e, portanto, pode ser tudo.

Tatiana Monassa

(le marais, por gus van sant)

eu falo e você não entende…

eu amo e você não sente…

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